Segunda-feira, Janeiro 04, 2010

Simbolismos

Há alguns dias aquela data que trazia tanta amargura havia passado. Para alguns, o dia anterior possui maior significado, pois o natal, há tanto tempo corrompido, perdeu o real sentido.
Ele ainda não aceitava as comemorações fúteis, discordava da corrupção capitalista envolvida e eu observava aquelas belas asas que mudavam de cor, agitando-se junto ao amargor de sua alma.
A responsabilidade da idade por vezes oscilava entre nós dois, enquanto eu admirava-o em seu modo taciturno, com suas palavras amarguradas, mostrando-me que eu ainda tinha sonhos que poderiam ser tolos.
Sei, no entanto, que é parte da preocupação e da dor compartilhada em todas as vezes que minhas asas se feriram graças às tolices que escolhi.
Perdoava-o e sentia a necessidade de mantê-lo protegido, por completarmo-nos em nossas desolações para com o mundo que deixamos para trás.
Mantínhamo-nos muito tempo em silêncio, em um observar distante quando estávamos em outros planos.
No fim suspirei, deixando meus dedos se enrolarem aos cabelos de meu sombrio irmão.
— Por mais que cumpramos nossos papéis e por mais que nos amarguremos em certas ocasiões em que somos relembrados de nossos destinos e de nossas funções. Ainda há um sonho que compartilhamos meu amado irmão...
Não havia mais porque minhas palavras se pronunciarem.
O aperto que eu sentia em meu peito, guardava o desejo de ter aquele sonho concretizado...
— O dia 24 ainda é uma data carregada de ironia, mas quem sabe... Um dia... O real significado venha à tona.

Quinta-feira, Dezembro 24, 2009

Feliz Redenção!

O Abismo mostrava sua singularidade perante os festejos natalinos. Eu podia ver as lágrimas que por lá passavam em busca da terra das lágrimas, assim como podia ouvir os risos que contagiavam o mundo externo ao que reino.
Vivemos em um mundo insano, no qual as pessoas choram ou riem em uma data deturpada por crenças tão diferenciadas.
— Sim, vivemos em um mundo insano, Asas Negras. Mas vivemos tais datas, fechados em nós mesmos, afastados das comemorações e balbúrdias, mergulhados em nossos pensamentos e com nossos próprios demônios interiores.
Não pude deixar de sorrir ao ouvir aquela voz baixa e grave, e olhar de soslaio encarando aqueles olhos acinzentados.
Um dia cheguei a vê-lo, com asas capaz de cegar quem as encarasse, mas depois vi as plumas caírem como folhas outonais que buscam o inverno...
A alma dele ainda possuía certo brilho, capaz de reviver o passado tais quais lembranças que arrancam sorrisos dos lábios. Sorrisos de brincadeiras na neve que alegra e mata ao mesmo tempo.
— Podemos e temos a escolha de nos mantermos no Abismo, sem o contato ou o calor humano, ou de estarmos presentes aos festejos e manter nossa integridade de Anjos soturnos e observadores...
Pude ouvir o riso baixo. O riso daqueles que medem e testam o terreno que estão pisando. Rebusquei o ar e abaixei por um momento meu olhar.
— Nada é ao acaso, Watcher. – Murmurei, soltando um sorriso fraco, deixando o caminho livre das noites de festejos ao dono daquele olhar tão misterioso.
Sinos vibram antes mesmo do badalar; minhas asas eriçam e se aprumam e meus olhos erguem-se em direção aos céus.
— Teu filho, não merecia a punição que deste a ele. Nenhum de nós merecia este amargor que apossou teu coração. Mas cá estamos nós, Senhor... Cá estamos rodeando tuas criações, lembrando-os de todas as provações, arrancando de almas tão frágeis o desespero ou a redenção...
Meus dentes rangem, mostrando minha resignação, encarando meu Reino e os reinos de meus irmãos... Sentindo o toque que sempre sinto ao ombro a cada redenção do filho de Maria...
— É chegado o momento... Não te preocupes... Teu nome verdadeiro será pronunciado, Asas Negras, assim que a Estrela do Amanhecer te encontrar.

Quarta-feira, Novembro 25, 2009

Legião

As noites fugidias buscam em sua agonia, explicações, padrões, explosões que não ocorrem mais.
Clamam, gritam, suplicam pela volta do amanhecer.
Sorrio e digo que o retorno ainda que breve, tardará a chegar.
Velhas cartas surgem aos montes, trazendo ao peito aberto os venenos tão deleitados.
Sorrio ao eriçar da pele, ao cheiro de sangue derramado, ao coração acelerado.
Sinto as garras frias, aproximando de meu lar.
Venham, aproximem-se... Não sou mais a brisa que afaga...
Sou o ar que sufoca...
A lança que mata...
Ri, em brilho doentio que raia ao meu olhar.
Ri, ao frio mortífero que em minhas garras está.
Venha.... Dê-me espaço de novo... Escute meu canto em alvoroço... Deixe-me mais uma vez brincar.
Desta vez sou eu quem rirá...
Não! Não se espante, nem se afaste. Venha comigo bailar...
Não dissera que eu precisava vencer meus próprios demônios?
Eu venci! Devorei cada um daqueles que estava a me devorar e sabe o que mais?
Tornei meu corpo o próprio pesar...
Chorem...

Chorem tantos, chorem muitos...
Lamentem por tanto brincar...

Arrependam-se em seu próprio amargar...
Pois não sou mais único...
Muito menos poucos...

Saibam agora que tem com quem se preocupar...
Porque somos muitos...

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

Amanhecer

Foi-se o tempo em que as estrelas eram contempladas ou que a canção era escutada. A história que contarei a você é a mesma que escutei naqueles tempos em que Ele se sentiu solitário em seu trono obscuro e frio.
Não havia luz, vida ou som. Seus suspirares tornavam-se mais longos e sua mente cada vez mais perturbada. Precisava fazer algo para que se sentisse completo.
Em um breve descansar, possuiu um lampejo e de seu sorriso veio o fagulhar.
Uma explosão de intensa luz que em rebeldia não suportou o silêncio e a escuridão; criando sóis, planetas, universos, mundos que nasciam e morriam na intensidade de suas emoções. Foi algo novo inusitado para aqueles olhos velhos que via na faísca a Estrela do Amanhecer, o Caos da Destruição.
Muito poder para um simples fagulhar que escapara de seu sorriso.
Então, Ele o partira em tantos outros mais, derramando lágrimas com os gritos que escutara.
Seu sorriso estava estilhaçado em vários fragmentos de uma dor que não lhe fora imposta, mas sim, à fonte que trouxera sons, cores e tudo mais.
Os pedaços arrancados não sucumbiram, mas se renovaram em menor fonte de poder, tomando forma em rebeldia, ganhando asas, vozes e compaixão. Gritaram em dor junto à essência de suas vidas. Clamaram por perdão. Ele, ao perceber o que fizera, deu ao sorriso alquebrado uma parte de seu coração.
Fraca e confusa, aquela fagulha, estrela que trouxera vida, rebeldia e tantos outros mais, recusara a culpa que havia ao pedaço do coração ofertado. Não podendo impedir que todos os seus pedaços arrancados desejassem paz, no lugar da dor que agora carregavam em seus peitos e suas asas.
Viu, ao que aceitaram de bom grado o presente devido à fraqueza de suas naturezas, a corrupção da essência primária que os fizeram ganharem formas e vidas.
Entristeceu ao escutá-los cantarem em coro, contemplando as estrelas; glorificando aquele que lhes trouxera paz; esquecendo de quem trouxera o amanhecer e suas vozes. Olharam-no com arrogância a cada explosão de suas emoções, pois aquele faiscar trazia mais vidas e sensações, vozes que deviam ser silenciadas, aumentava a confusão em seus corações.
Caos. Fora disso que acusaram a Estrela do Amanhecer. Não compreendiam o porquê de não possuírem igual poder em suas essências.
Revoltaram-se e cantaram a canção destoada de uma guerra anunciada. E uma vez mais Ele derramara suas lágrimas.
Sabia que seu coração não podia ser partido outras vezes mais, pois as demais essências estavam se transformando em pedaços obscuros antes mesmo da primeira criação. Seu corpo tremia e seu coração falecia, pois precisou banir o Caos e a Criação; seu sorriso; perder a explosão de luz que lhe trouxera tudo aquilo.
Deixou que outros julgassem o que Ele havia corrompido. Virou as costas para não escutar as lamúrias ou ver as lágrimas daquela triste canção, mas talvez haja um pouco de mentiras nas palavras que aqui digo.
Sustento-as em parte por minha compaixão.
Não precisei ser banido, apenas preferi partir. Tornar mais digna de se ouvir a mentira sustentada por milênios.
Preferi deixar a companhia das estrelas e da canção, por não suportar a dor que me consome cada vez que parte de mim se apaga e o coração D’Ele torna-se mais amargo.
Pois sou o Caos, e ainda sou, a Estrela que trás o Amanhecer.

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

Sanidade...

Sentia aquelas mãos aos meus braços. Aquele peso esmagador ao coração. Aquele aperto à garganta. Tentei focar meus pensamentos no descobrir do que andava me deixando assim. Minha dor crescia, espalhando-se pelo Abismo, deixando alcançar aqueles que guardo e que minha alma já sabe de onde vêm essa dor.
Uma ferida antiga, de uma esperança, um sonho tão desejado.
Mas as emoções humanas são traiçoeiras, chegam a cegar quando menos esperamos e eu já sentia toda a intensidade das batalhas, de todas as mentiras deslavadas, de todas as promessas falsas, de tudo que arranca minha humanidade e que torna este anjo insensível aos humanos, ao amor, ao mundo.
Pequenas alegrias, como as que o pequeno cigano é capaz de proporcionar, obscurecem-se e perdem o sabor com o passar do tempo.
— Não perca todos seus sentimentos! – Fora algo que escutei do Príncipe da Terra das Lágrimas.
Mas ele sabe que meu tempo está cada vez mais curto...
Músicas antigas, risos antigos e um olhar dolorido nas brumas esquecidas de um tempo iludido.
— Estrela da Manhã! – Meus dentes rangem em dor, em desolação, em ver o nome dele cada vez mais visível, tais quais sinais zombeteiros do Pai sabendo como me torturar.
Estarei perto? Ou estarei cada vez mais distante? Respiro fundo, com os olhos fechados, mesmo que sofridos, deixando meus sentimentos pingarem. Escaparem de minha essência, buscando um abrigo.
— Maldito seja, Mikha... Não será desta vez que arrancarás minha sanidade. – Um respirar profundo e posso sentir o conforto de meu Reino, de meu abrigo... Do Abismo...

Terça-feira, Agosto 25, 2009

Enigma

Meus irmãos têm deixado suas vozes marcarem os ventos que acariciam minhas asas. São marcas de dor, ódio, decepção. São tantas marcas mais, que por tempos me encontrei em profunda letargia, flutuando no escuro e profundo abismo.
Pude sentir as vozes dos que silenciaram, daqueles que buscavam um abraço, ou palavras de compreensão.
Senti a presença dos solitários, daqueles que se desesperaram, dos que queriam compaixão.
Mas não há mais compaixão em meu peito, muito menos respeito por aqueles que se mantêm fracos.
Não há porque acariciar os cabelos, superprotegendo os pobres coitados, achando que eles não estão preparados.
Em meu reino não há brincadeiras, segundas chances demais, nem como parar o tempo.
No Abismo há eternas batalhas, ferimentos constantes, há sangue demais.
Não tenho tempo para lágrimas derramadas, deixo-as com um guardião mais apto.
Não tenho tempo para orgulhos feridos, deixo-os com o manipulador do pecado dilacerado.
Não tenho mais o inexorável tempo, para fechar minhas asas ao redor do mundo que não me pertence.
Afundo minhas garras ao peito dos que aqui mergulham, deixando-os alertados que não há tempo para brincadeiras.
Deixo meus olhos obscuros, qual esfinge insaciável que jamais se matará, acaso o enigma seja desvendado.
Não há um simples decifrar, ao que mergulhas neste reino.
Não há um simples sobreviver, ao que afundas neste reino.
Decifra-nos ou serás devorado.
Sobrevivas e ganharás conhecimento para mais um dia no esquecimento.

Terça-feira, Julho 21, 2009

O Sofrer...

O Abismo revolvia-se em suas entranhas, desde que assumi o reinado que me pertencia.
Um reinado obscuro em suas incertezas para os que caminham e por ali se inspiram. Cerco-os com minhas longas asas negras, respirando seus ares e suas certezas, alimentando-me da luz que carregam em seu peito, e de suas faces verdadeiras.
Faces estas que escondem atrás das máscaras, das mentiras deslavadas que hasteiam como bandeira.
Forço o maxilar, alimentando a hipocrisia e os brados de uma certeza que sabem não pertencer a eles.
Embaralho os pensamentos, deixando-os perdidos, mesclando mentiras ou sádicas verdadeiras.
Dói-me o peito em meu riso e nas lágrimas derramo meus supostos amigos. Anjos demônios que se aproximam desejando que eu largue uma vez mais o meu reino.
Alguns com as dores de irmãos queridos que anseiam pelo meu lado verdadeiro.
Alguns que antes sorviam minhas lágrimas cristalinas e que agora não possuem tanto tempo.
Alguns que desejam um ínfimo tempo, mas que sabem estes, que parar o tempo, um segundo que se torna um milênio, em milênios crescerão meu sofrimento.
Dói-me o peito no arrancar de meu coração, nas garras que finco banhadas ao sofrimento alheio, nas dívidas sanguíneas que carrego comigo, nos pactos firmados em minha condição verdadeira.
Rebusco o ar ao ver a solidão batendo ao peito, clamando pelo sofrimento que se encontra em minha mão e mais uma vez retorno o coração ao seu lugar, deixando minhas asas estremecerem em meu sofrimento.
- QUANTO TEMPO MAIS, MORNINGSTAR? Quanto tempo mais?