quinta-feira, outubro 15, 2015

Doce e delicado Outubro

Lá estava ela, mergulhada em seus pensamentos, vendo o Cigano andando pela residência e mais uma vez, seus pensamentos mordazes o assombrariam se ele sequer pensasse o que ela escrevia enquanto ele se preparava para suas batalhas.
...
Todos os dias eu acordo e penso em milhares de formas em que posso morrer naquele dia. Com esses pensamentos sondando a minha mente, meu corpo entra no automático e começo as tarefas triviais que não interferirão no mundo externo que me assombra. Depois que o ciclo se completa dou meu até logo o qual preciso escutar a resposta do até mais e beijo a cabeça do Cigano enquanto ele ainda está mergulhado no mundo de Morpheus.
No entanto, no último ciclo às vezes falho... E quando falho, meus passos estacam, os olhos arregalam e o coração descompassa. O tempo é preciso, curto, mostra que não há tempo para erros e retorno. É preciso acelerar, resignar e ter meus pensamentos assombrados por aquele ato falho. Não há mais tempo de voltar, de despedir, de ter a certeza que se o dia derradeiro for exatamente esse dia, poderei morrer em paz por ter me despedido da forma que acho adequada.
Quando falho, cada lugar possível de uma das visões que tive ao acordar faz-me esperar para ver se as concretizo ou se foi mais um falso alerta de quem sempre viveu o dia como se fosse o último dia de sua/minha vida. No caso do falso alerta, suspiro profundamente, fecho os olhos e prossigo com a vida que entra no automático até encontrar a próxima possibilidade do fim da minha existência.
Porém, quando completo o ciclo da forma adequada, a vida inteira entra no automático, decorre com as horas parecendo segundos, sem visões de morte ou de coisas que possam dar erradas. O olhar veste máscaras tão bem adequadas que nem mesmo eu sei que papel desempenhei naquele bendito dia. As conversas parecem agradáveis, os risos psicopatológicos, e ao retornar para o conforto do meu lar, meu corpo só descansará quando todas as peças estiverem completas e nada mais me faltar.
Seja bem vindo sexto antecedente dos 21 destas quatro décadas e algo mais. Obrigada por me assombrar mais uma vez corrente.
....

Era interessante observá-la discorrendo o que a assombrava, mas era desconcertante quando ela olhava em meus olhos, com aquelas sombras que escondiam um mundo que pulsava e desejava voltar à vida... Não de formas coloridas... Mas de um modo que muitos não iriam gostar.

sábado, janeiro 03, 2009

Sombras à madrugada

A madrugada seguia por mim, enquanto a chuva caía torrencial e van alguma queria levar-me para a Central do Brasil. Deveria ter me preparado melhor, mas havia bem pouco que poderia fazer agora. E pelo jeito q todos os motoristas chegavam anunciando que não pretendiam voltar, o caminho de volta ao Rio deveria estar bem ruim, com tanta água. Sobre a plataforma, já éramos o suficiente para lotar duas viagens e mesmo assim nenhuma van de volta. Até, claro, a mais ferrada de todas surgir do nada, desembarcando uma lotação naquela rodoviária de interior e anunciando que voltaria.

Seguiria até o destino final, então sentei-me ao fundo, em um canto. Ao meu lado, curiosamente, um pastor evangélico negro trazia sua bíblia e me cumprimentava, antes de pegar o celular para avisar a alguém q finalmente havia conseguido condução de volta à capital. Em meio à conversa, um dado curioso: "Fui comprar os sapatos e vieram me chamando de pastor, daquele jeito, sabe? Quase perguntei se me preferiam de volta nas drogas e no crime." Ao nosso lado, sentou-se um senhor fedendo a álcool que não sabia indicar onde precisava saltar. Todos demorando a se acomodar, bem mais gente do que deveria caber, ali. Mas fomos.

Em meio à jornada, o pastor lia Pedro: Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo; Se é que já provastes que o Senhor é benigno. A página terminava aí, junto com meu interesse, e fui dar conta de passar meu próprio tempo longe das palavras dos outros primogênitos e da igreja do Filho. Tenho uma predileção, ao jogar Sudoku, por cantar em voz baixa os números q procuro. O q causou uma reação curiosa do pastor, cada vez q eu procurava os seis, de três em três quadrados. "Meia, meia... meia."

Central do Brasil. A van mais lerda da história me deixara lá depois de 00h40 e encontrei o ponto do 184 vazio. O pastor havia seguido qualquer outro caminho. Quando cheguei à plataforma do meu ônibus, já havia um outro rapaz, 30 e poucos anos, talvez, e ficamos aguardando. 3 carros vieram e os 3 avisaram q já dirigiam-se à garagem, depois dali. 01h25 o homem pergunta-me "Quer rachar um táxi até o ponto final, em Laranjeiras?"; "Como sabe que vou pro ponto final?"; "E porquê não saberia? Mas a 3 quadras daqui passam o 497 e o 498, tbm." Eu sabia desses dois ônibus, mas não costumava caminhar até lá. Era em si um lugar bem ermo. Fomos.

Em meio à espera, dois homens, negros, vieram ao ponto. Um deles, mais baixo, enfurecido. O outro um homem mais alto, forte, carregando uma cesta de natal. O primeiro relatava de como lhe haviam roubado a mochila. "Não tinha nada de valor lá! Eu não tenho nada de valor! Só minhas roupas do trabalho, meus documentos, cara. Meus instrumentos. O q me define!" O homem que estava comigo começou a sorrir e me olhou de soslaio, antes de conversar com o revoltoso. "Levaram mesmo? Mas na mão grande assim?"; "Assim, cara. Porra, hoje quem me olha torto eu pego."; "Os justos pagarão pelos pecadores."; "Issaê! É bíblico, né? Mas é isso mermo! Quero porrar alguém hoje. Os justos pagarão pelos pecadores! Minha mochila, cara, porra!"

O homem ao meu lado instigava aquele mortal a falar cada vez mais. O rapaz gritava. Quando veio o 498, sentou-se, furioso, ficava dando socos na cadeira. Dizia q queria pegar um. E repetia o tempo todo "Os justos, cara... alguém vai pagar por esse pecador filho da puta." O ônibus estava mais sujo q a calçada. Terra virara lama, latinhas de cerveja, duas, rolando pelo chão. Várias pessoas lá dentro, o homem incomodando, o outro sentado atrás dele e eu e o rapaz da Central que me levara até ali sentados no fundo. Até que ele se pronunciou "Tá vendo? Isso é bíblico." e começou a rir.

Começou a conversar comigo sobre o quão insanas se tornam as madrugadas. Que mundo é esse, de ataques a esmo e um filho, porque todos supostamente somos filhos de Deus, honesto, trabalhador, sendo roubado de tudo o q tem. Uma mochila. Roubaram-lhe tudo o que tinha, que ele carregava às costas. Me fez a pergunta. "Quanta gente já perdeu igual, suas... mochilas?" Foi quando meus olhos se abriram, como minhas asas... percebi com quem eu falava. Toda a violência que se construía naquela cena, todas as palavras e até onde aquele homem me levara. Observei-o sorrir, quando o incômodo do passageiro se tornou demais e o trocador foi ter com ele. O ônibus parou, a briga havia estancado, as pessoas tentando separar. O assaltado berrava.

Pude ver aquele homem perdendo asas... Não as dele, mas aquela raiva era a de um caído. Aquele mortal provocava-se com a mágoa de um de nós. E ao meu lado, Beelzebuth sorria. "A madrugada de um trabalhador. Revoltado, incontido." Quando separaram tudo e o ônibus começou a andar, o trocador olhou para nós, lá no fundo, os únicos q nada fizeram em meio à confusão. A gravata rasgada e a cruz pendendo do pescoço.

Os dois saltamos perto do ponto final do 184 e caminhamos. Ele me falava, como me falaria há eras atrás: "Aquele cara tá certo, sabe? Tem horas q violência só se pode revidar. Violência gera violência, então pra quê ficar parado quando te provocam?"; "Existem momentos, sim..."; "Quer momento melhor que às duas da madruga?"; "Tem horas que parece q o demônio vem mostrar seu exército, orgulhoso."; "Do jeito q tá fácil pra ele, estranho seria se não fizesse."

Ao alcançarmos a esquina de minha rua, logo ao ponto final, ele falou "Valeu, cara, boa noite" e virou-se em um caminho totalmente oposto, voltando a descer a rua. Só respondi "Boa noite, Rei das Moscas", ao q ele sorriu, antes de ir-se.

Beelzebuth, general, mostrava-me suas garras.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Caindo

Não podia vencer e sabia disso... apenas um idiota desafia algo que não pode vencer. - Retire-se! - Sussurro.

Os sábios esperam e se fortalecem. Só então desafiam. Olhos, que deveriam ser celestiais, me olham com ódio infernal! Devolvo-lhes o sentimento, com olhos em chamas... eles observam-me, num misto de ódio e desapontamento. Minhas asas se foram... minha lança é a única coisa que me resta. Quero atacar, mas é espudidez fazê-lo! Os desafiaria por eras, se fosse preciso... mas não agora...

- Retire-se! - Ordeno-me.

Então a luz..
Caí.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Contemplação de Astaroth

Penas negras escurecem o ambiente. Uma dança insana gira ao meu redor. Dança, onde sangue e gritos circulam maravilhosamente belos e aterradores. Ao longe duas figuras. Anjos. Os mais belos. As mais belas.
Os olhos de uma delas torna-se de uma rubro que jamais esquecerei. Uma lança. Uma espada. Cada uma delas com seus instrumentos de dor. Parte delas.. Parte de mim. Uma olha-me. Aponta sua lança em minha direção. Conheço-a como nenhum outro já conheceu. Ela não sorriria. Sua feição angelical é terrível! E linda...
De outro lado, dois lindos olhos se colorem de um amarelo alaranjado. Um círculo de fogo brota de sua íris. Olham em minha direção. Aquelas duas a me olhar. A batalha insana logo abaixo de nós. Do alto daquela pedra gigantesca onde me encontro, olho para o fundo daquele vale de proporções dantescas. Sangue, penas e gritos. Meu coração, imortal, acelera. O amor por elas é surreal. Mortais jamais sentiram algo assim. E jamais sentirão. Minhas asas negras abrem-se, tomando proporções tão maravilhosas que uma sombra enorme toma conta do vale. Três pares de asas abertas tomam conta daquele vale maravilhoso. Lugar onde caminhamos há eras, e que agora é o lar da guerra, do amor e do ódio.
Lá de baixo daquele vale um grito é o sinal. A voz do Quarto entre nós pode ser escutada em nossas mentes. Ele clama por nós e nós clamamos por ele. Ele é cruel e perigoso. Mas sua paixão pela causa faria o corpo de um mortal dilacerar-se ao sentir tal sentimento. Atendemos ao chamado do Quarto e descemos com as asas abertas em direção ao vale. Em direção à batalha pela paixão. Pela dor.
As serpentes sibilam ao redor de minha lança, olhando o tempo inteiro em direção à batalha, às penas e ao sangue que parece fazer parte do ambiente. Enquanto meus olhos contemplam as duas, partes de mim, que voam ao meu lado. No entanto, os olhos de fogo de minha amada penetram o mais profundo que um olhar pode em minha essência. Aquele olhar para uma alma humana a extinguiria de imediato. Um amor incondicional estremece meu corpo e minhas asas. Ela sente o mesmo. Sussurro então:
- Seja feita a nossa vontade.
Em minha mente escuto o sussurro vindo de suas bocas.
- Seja feita a nossa vontade...
Os olhos negros de uma de minhas irmãs voltam-se para a batalha, enquanto os olhos de fogo, mesmo fitando agora em outra direção, continua a me acompanhar. Sussurram: amo-te... amo-te... amo-te...
Por eras esse sussurro me acompanha. No fogo ou na água...

terça-feira, dezembro 02, 2008

Segredos

Ao longe só se via uma grande fogueira.

Ele corre desesperadamente, desce a colina e quando chega encontra-a envolta em chamas.

- Pare com isso! – grita o rapaz.

- Me consumirei em chamas – responde a moça serenamente.

- Não!

- Estamos errados... Eu não nasci para ser sua... – a lagrima evapora assim que se desprende do olho dela.

- Se pretendes se consumir em chamas, eu virarei vapor! – ele a envolve com um manto de água e uma densa nuvem de vapor se forma ao redor dos dois.

- Não faça isso, deixe-me ir, meu sofrimento vai acabar... – implora ela.

- Não! Se você for eu também irei. Eu te amo, entendeu?

Ela vira o rosto, as chamas ficam cada vez mais intensas.

- Mas... Eu não posso te amar! – grita a jovem.

- Quem disse?

- Tu sabes muito bem quem disseste isso!

- O que te impede de amar os dois?

- O amor que sinto por ti, era para sentir por ele!

- Não! Não podemos amar forçados, nossa essência escolheu!

- Somos opostos!

- Os opostos se atraem minha querida...

- Meu...

- ... Meu amor...

- Abaixe suas chamas, não estou agüentando...

Ela fecha os olhos e o calor ao redor dos dois é diminuído.

- A...

- Chiu! Não fale meu nome... – ele coloca o dedo nos lábios dela.

- Mas...

- Chame de meu amor, eu saberei a quem está se referindo e eles nunca saberão que o tipo de amor por ele é diferente, como o meu por Laurana. Apenas saberão que amas, mas não saberão em que intensidade e eu lhe peço que só volte a pronunciar meu nome quando eu o sussurrar em seu ouvido.

Os dois se beijam intensamente e as asas negras dele os envolvem, abraçando. Ali eles consumam o amor que sentem e depois ficam apenas se contemplando.

- Estará protegida por mim...

- Estamos diante de uma grande luta, e eu lutarei ao seu lado, com toda a minha força, nós quadro, juntos! – ela fala firme.

- E se por acaso viermos a nos separar eu te chamei pelo seu nome, e essa será a forma de eu disser que estás segura de novo comigo...

Uma fina chuva cai sobre os dois, molhando as penas. Ela balança suas asas o fazendo sorrir.

- Essa chuva fina sela nosso pacto... Nosso segredo.

- Somente nosso...

- E tu serás minha, agora e para sempre...

- Para sempre sua... Eu te amo, e no meu coração não pisará outro homem... Não da forma que tu está aqui... Minha essência é a sua essência.

- Eu te amo! – ele a abraça com força e os dois adormecem na relva da colina.